O Dr. Luther Rice – Breve Biografia

Dr. Luther Rice: O Primeiro Olhar Batista no Brasil

Jamais poderíamos mencionar as missões evangelizadoras no Brasil e esquecer o nome do missionário Luther Rice. Apesar de ter sido negligenciado pelos historiadores batistas brasileiros e de sua participação em terras brasileiras ter sido rápida, e nem mesmo ter sido de caráter evangelizador, ele foi o primeiro batista a estar em terras brasileiras, e aportou aqui com a finalidade de estudar a possibilidade de organizar uma empreitada missionária em nossas terras. Ele foi um zeloso crente, um ardoroso missionário e um iminente teólogo. Vale conhecermos, de forma brevíssima, um pouco de sua história.

Luther Rice nasceu em Northborough, no condado de Worcester, no estado da Massachusets. Foi desde a tenra idade dedicado aos estudos, demonstrando assim não apenas o dever de estudar, mas o prazer em faze-lo. Foi chamado para servir a Cristo quando ainda era uma criança, passando a enfileirar junto com os congregacionais. O relacionamento dele com o pai não era dos melhores. Por razões que nem Rice e nem seus irmãos nunca souberam, o seu pai, um distinto e bem sucedido fazendeiro, parecia alimentar um mal sem sentido contra o jovem Luther, seu filho mais novo. Seu pai tinha problemas com bebida, e apesar de membro da igreja congregacional, não levava uma vida de obediência ao senhorio de Cristo. Enquanto um profundo sentimento de culpa e de pecado parecia penetrar até os ossos do jovem Luther Rice, a maioria dos membros de sua igreja e das demais denominações daquele período pareciam não conhecer a Regeneração. 

Em 1807 iniciou sua preparação educacional, já com vistas ao ministério, no Williams College. Rice era um zeloso crente e uma profunda devoção a Deus o fazia passar grandes momentos na presença do seu Salvador, orando e clamando por sua graça. Ele cultivava uma ardente desejo por Deus e seu coração parecia sempre está em chamas. Apesar de Deus ocupar um lugar central no seu coração, ele também anelava muito pelas almas perdidas. Sempre que se retirava para suas meditações, que costumavam acontecer nas imediações do Williams College, Luther clamava pelas vidas que caminhavam cegas, sem Deus.

Logo que Rice iniciou seus estudos no Williams College, seu coração foi separado para a causa missionária. Toda a sua vida estava reservada para a obra do Salvador, em particular as missões estrangeiras. Não apenas ele, mas um grupo de estudantes, seus amigos, sentiam-se particularmente incomodados a olhar para as terras pagãs. Rice não estava só, havia um grupo junto com ele, do qual ele era parte, que o Senhor escolherá para serem portadores de boas novas em longínquas terras. Estes dedicados jovens, em 1810 procuraram a Associação Geral dos Congregacionais de Massachusets afim de lhes revelar seus intentos missionários.

Finalmente, passados alguns anos, em 1812, Luther Rice e seus decididos amigos embarcavam, celebrados por uma grande multidão, para a missão de evangelizar os pagãos. Rice, congregacional convicto, rumou em um navio com destino a Calcutá, na Índia. No mesmo navio estavam alguns batistas ingleses. A viagem foi marcante para Luther Rice. Dois navios deixaram Salém, na Filadélfia, levando missionários com destino a Índia. Em uma das embarcações estava Adoniram Judson e sua esposa, na outra estava Luther Rice. Em pleno mar, abordo do navio que o levaria a índia, O Senhor começou a deixar o novel missionário interiormente abalado, quanto a um ponto de sua fé. Questões quanto ao batismo infantil começaram a incomodá-lo. Enquanto navegava, ele estudava no seu Novo Testamento profundamente essa questão. Algumas sadios reflexões sobre esse e outros temas aconteciam entre Luther e os batistas ungleses. Algo extraordinário estava acontecendo no outro navio, com outro congregacional, Adoniram Judson, que também navegava em direção a Calcutá. Ambos estavam estudando sobre o batismo, mas nem se quer tinham mencionado nada sobre isso anteriormente.

 Jaimes B. Taylor fala sobre esse episódio:

 Um evento estava acontecendo, e considerando todas as coincidências singulares e poderosos resultados, era evidente que estava sob a orientação do grande chefe da igreja. Refirimo-nos sobre a mudança de sentimento que estava acontecendo nestas três almas quanto ao tema do batismo (…) nesta circunstancia foi especialmente notável o fato de que, enquanto o Sr. Judson, durante a viagem, foi analisar a questão do batismo, o Sr. Rice, em um outro navio, sem qualquer acordo anterior, estava no mesmo processo de investigação. (TAYLOR, Jaimes B. General Baptist Histoty, pp. 465,466. – extraído de Virginia Baptist Ministers, 1859. Tradução do autor).[1]

Aquele homem cujo coração ardia por Deus, estava enfrentando uma grande batalha antes mesmo de chegar a Calcutá. Quando os dois navios finalmente aportaram em terras indianas, o missionário William Carey os aguardava para dar-lhes as boas vindas. Carey sempre foi grande incentivo para Luther e seus amigos. Todos se admiravam das cartas de Carey e dos grandes desafios que ele enfrentava por amor a Cristo e aos pagãos. Mesmo estando abalado interiormente, Rice não externava seus sentimentos, antes, como lembrou o missionário William Carey, ele parecia “ser o maior amigo do pedobatismo, mais do que qualquer um dos demais misionários”, mas, continua Carey: “eu não posso dizer o que o levou a esta mudança de sentimento, nem eu tinha qualquer suspeita, até um dia quando ele chegou, eu estava para analisar o meu testamento grego sobre algumas questões que ele pediu, percebi que ele estava curioso, mas ontem eu ouvi que ele decididamente estava do lado do batismo de crentes. Espero, portanto, que ele seja batizado em breve” (Ibid, p. 466).

Havia um forte sentimento denominacional, um elo muito forte com a igreja congregacional, na qual conhecera o Salvador, e isso era um dos fortes motivos que angustiavam Rice. Enquanto ele estudava atentamente seu Novo Testamento, afim de refutar as idéias de Carey quanto ao batismo, o que ele acabou descobrindo foi mais argumentos em favor da maneira como os batistas batizavam. Mas ele não se entregava facilmente. Somente depois de acometido de uma hepatite, o que o obrigou a descansar, ele empenhou-se como nunca antes nos estudos do Novo Testamento Grego. Por fim, seus sentimentos denominacionais que o barravam foram vencidos pela veracidade que ele encontrou na Palavra de Deus, mas isso não aconteceu sem que uma grande batalha interna fosse travada. Em 23 de outubro de 1812 ele escreveu para a missão congregacionalista que havia lhe enviado. Em sua carta Luther Rice declarou que após estudar a questão do batismo em seu Novo Testamento, estava convencido de que apenas as pessoas que demonstravam fé estavam aptas para receber o batismo, e que a imersão era a única forma correta de batismo. Luther Rice foi batizado por imersão, no dia primeiro de novembro de 1812, em Calcutá, pelo pastor William Ward, um dos homens que fazia parte do grupo de missionários liderados por William Carey. Desde então, Rice, desfeita toda insegurança e dúvida, e em seu coração jubiloso e livre, passara a integrar o número daqueles que serviam a Cristo nos arraiais batistas. Mas havia um problema que os incomodava logo que chegaram em Calcutá. A Companhia das Índias os estava pressionando a voltar para a América. Ele e Judson também entendiam que precisavam dar maiores explicações aos congregacionais e ratificar a saída. Também pretendiam apresentar-se diante dos batistas e solicitar-lhes apoio.  Judson estava descidido em seu coração ir para a Birmânia. Coube a Rice a tarefa de regressar aos Estados Unidos. Essa decisão foi tomada por eles e tinha como objetivo principal despertar os batistas da América do Norte para a evangelização estrangeira.

Quando embarcou de volta para os Estados Unidos, em sua travessia pelo Atlântico, Luther Rice decide aportar no Brasil, ficando por dois meses no Império, hospedado na residência do Cônsul Norte-Americano. Com a alma renovada, vibrante e com a mesma fé e paixão que desde muito jovem ele cultivava por missões, Rice passou a observar o Brasil e conhecer o povo, bem como as autoridades do Império. Não se sabe ao certo, mas é possível que Rice, estando o campo missionário da Índia fechado para novos missionários, ter desejado, ele mesmo, trabalhar no Brasil. Seu coração era missionária, queimava com o desejo de espalhar a Palavra de Deus ao povo que não o conhecia. Sua maior meta na vida era fazer o nome de Jesus Cristo conhecido entre os pagãos. Por fim, após deixar o Brasil, ele desembarca no porto americano de Nova York, em setembro de 1813.

Luther Rice foi um dos maiores vultos dos batistas de todos os tempos, quando o assunto a se tratar são as missões estrangeiras. Ele mesmo, embora desejoso de todo coração de se entregar pelos pagãos do mundo em qualquer terra que o Senhor resolvesse enviar-lhe, foi destinado pelo Senhor a trabalhar por missões, mas de um modo diferente daquele que ele mesmo imaginara. Dotado de uma voz excelente, grande orador e dedicado teólogo, e com um coração que batia por evangelizar o mundo, aprouve a Deus usa-lo para despertar os batistas americanos. Sua pregação era tão poderosa, tão bíblica e cheia de força e coragem, que os resultados logo começaram a chegar. Ele pregou na mais importantes  igrejas batistas e uma grande multidão começou a enxergar a obra missionária como algo de vital importância na vida da igreja. Logo as contribuições começaram a chegar. Onde Rice pregava havia mudança de concepção quanto a evangelização mundial. Um grande interesse por missões foi despertado em milhares de almas batistas em todo a América do Norte. Ele mesmo era grande exemplo, pois percorria no lombo de animais a grande dimensão do território americano para visitar os mais distantes trabalhos missionários na América. Ele mesmo diz, assim como o apóstolo Paulo, ter atravessado terras perigosas, cortado águas congeladas, experimentado frio e calor, além do perigo dos índios e das feras.

Embora empenhado evangelista, vale ressaltarmos que o Dr. Luther Rice primava pela exaltação de Deus. Conhecedor das doutrinas bíblicas e estudante intenso da Bíblia, sua visão missionária era embasada na Palavra de Deus. Robert Selph cita a exatidão doutrinária de Luther Rice, em sua obra Os Batistas e a Doutrina da Eleição:

 “[ele] se deleitava nas doutrinas da graça. Disse ele: “Portanto, quão absurdo é contender com a doutrina da eleição ou contra os decretos da soberania divina! Contudo, não alimentemos amargura contra aqueles que encaram essa questão sob uma luz diferente, e nem os tratemos de modo arrogante. Pelo contrário, sejamos gentis para com todos os homens, pois quem nos fez diferentes do que antes éramos? Quem removeu as escamas que nos encobriam os olhos? E quem nos dispôs para abraçarmos a verdade?”.

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 Bibliografia:

1. http://www.geocities.com/baptist_documents/british.html

2. TAYLOR, James Barnett. Memoir of Rev. Luther Rice (Baltimore, 1841).

3. SELPH, Robert B. Os Batistas e a Doutrina da Eleição. Ed. Fiel, São José dos Campos – SP, 1995.

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