A CFB 1644 e a Providência de Deus – Comentário

O Artigo III da Confissão de Fé Batista de 1644, que trata da Providência de Deus, afirma nas primeiras linhas que: “Deus decretou em si mesmo, antes que o mundo existisse, todas as coisas”. Cara leitor, acompanhe comigo as implicações desta poderosa afirmação (que é bíblica!!).

A discussão que se segue é complexa, pois o artigo III desta confissão envolve as doutrinas que realçam a soberania de Deus: Seu decreto e sua providência. A redação do texto, embora resumida, é clara quanto ao pensamento dos batistas neste ponto: “Deus decretou em si mesmo, antes que o mundo existisse, todas as coisas”. O texto afirma primeiramente três grandes verdades:

1. Existe um decreto e Deus é o seu autor Soberano: “Deus decretou em si mesmo”;

2. O tempo do decreto. Ele é eterno, ou “antes que o mundo existisse”;

3. A abrangência do decreto. Ele é absoluto: “Deus decretou… todas as coisas”.

Há ordem e propósito na criação. Todo o Cosmos segue ordeiramente seu curso conforme o Criador estabeleceu. Não devemos pensar em Deus como um mero relojoeiro, conforme os deístas acreditam. A criação não é semelhante a um relógio, cujo relojoeiro produziu e deu corda para que ele funcione. Ele, agora, trabalhar sozinho, sem a necessidade do relojoeiro. Isto implicaria em um Deus que criou o universo com todas as suas leis bem definidas, mas que logo em seguida o deixou à sua própria sorte, sem se envolver com mais nada. Muito pelo contrário. Toda a criação de Deus é teleológica, isto é, tudo foi criado sabiamente com um fim específico. A criação tem propósito. E se tem um propósito, ou seja, um alvo final, faz-se necessário um plano bem traçado que conduza cada átomo criado ao seu destino último, ou seja, ao propósito de Deus. A isto chamamos o decreto de Deus. A criação e tudo que vai acontecer no tempo foram decretadas eternamente por Deus.

Como apresenta o texto da confissão, Deus “decretou em si mesmo”, e isso sugere exatamente a liberdade e o soberano beneplácito de Deus em decretar tudo o que ele quis, da maneira como ele quis e no tempo em que ele quis. Não havia nada, se não unicamente a eterna existência do Deus trino, por isso a expressão “em si mesmo”. Ele não decretou a alguém, como se existisse alguma coisa, Ele decretou em si mesmo.

Por que Deus decretou criar? A resposta é: porque o Senhor, em sua soberania, assim desejou. Deus jamais foi ou poderia ser impelido a criar o universo; a criação não é uma obra necessária, como se Deus obrigatoriamente tivesse que decretá-la, mas uma obra que tem sua origem no beneplácito de Deus. Tudo que Deus decretou, ele decretou livremente. Cada mínimo acontecimento na história universal, bem como as mais importantes decisões que já foram tomadas na história humana, é parte do decreto eterno de Deus. Nada escapa, nada acontece por acaso, por sorte ou por coincidência. Antes, o Todo-Poderoso a todas as coisas decretou.

O tempo do decreto foi “antes que o mundo existisse”. Na verdade usamos a frase tempo do decreto apenas com uma finalidade didática. Deus ainda não havia criado o tempo, ou espaço, ou qualquer coisa. O decreto é atemporal. Aconteceu na eternidade de Deus, por isso não podemos literalmente falar em tempo do decreto, pois o tempo não existia. A sabedoria e a inteligência de Deus são manifestas nisso. Pois que grande mente pode, antes mesmo que algo exista, estabelecer perfeitamente toda a sua história? Pense na sua própria história e em cada acontecimento que já lhe envolveu. Nos emaranhados de outros acontecimentos que estão interligados em si. O salmo 139 é claro quanto a este ponto, pois Davi prontamente declarou: “e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda” (Sl 139.16). Se já é incrível imaginar que Deus decretou tudo que nos acontece e que vai acontecer, pensemos nas mais de 6 bilhões de pessoas que vivem hoje sob a face da terra, nos mais diferentes locais e contextos. Pense na multidão de almas que já veio ao mundo desde Adão até nossos dias, e ainda as que virão nos dias futuros. Antes que qualquer uma delas existisse Deus decretou todas as coisas que lhes aconteceria minuciosamente. Pense também na multidão de animais, de todas as espécies que povoa a terra; os bilhões de Galáxias que existem, com seus intrincados sistemas e orbitas. Tudo foi plenamente decretado por Deus antes que qualquer coisa fosse criada: “antes que o mundo existisse”.

Não confundamos aqui Decreto com Providência. O decreto é atemporal, na eternidade, enquanto que a providência se vê no curso da história, acontece no tempo. Quando falamos em decreto, com relação ao universo estelar, por exemplo, apontamos o decreto de Deus em criar as Galáxias, estabelecê-las em um determinado ponto do universo, com um número determinado de astros, com órbitas estabelecidas, com distâncias prontamente definidas, com os acontecimentos que lhes sobrevirão, etc. Já a providência trata do controle que Deus exerce hoje e sempre sobre elas, bem como da sustentação que o Senhor lhes assegura.

Como vimos, tudo que acontece é parte do decreto de Deus. Os batistas ingleses sustentavam que Deus decretou “todas as coisas”. As implicações dessa afirmação são muito profundas. As grandes perguntas são: Deus decretou o mal? Deus decretou o pecado? Ao tempo que a grande resposta é que Ele decretou “todas as coisas”, e isso envolve decretar a existência do mal e do pecado, bem como as próprias ações de suas criaturas morais: “Eu formo a luz e crio as trevas, faça a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” (Is 45.7). Deus é o fim último de tudo. Tudo converge Nele.

Pr. Marcus Paixão

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