O significado da circuncisão

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É muito confortador ler o livro de Josué. Sua narrativa conta a história do povo de Deus sendo levado a entrar na terra prometida e ali habitar, desfrutando da promessa que Deus havia feito a Abraão e aos demais patriarcas: “darei essa terra a ti e a tua descendência, depois de ti”. Um dos grandes temas do livro é a Aliança de Deus com o povo. Em muitos pontos da narrativa somos levados de volta ao tema “Aliança”. Vejamos nesta breve postagem, o capítulo 5, onde Deus ordena a Josué que circuncide todo o povo (é importante que o texto bíblico seja lido agora).

A circuncisão foi ordenada a Abraão em Gênesis 17 como um sinal da aliança de Deus para com ele e a sua descendência.

A Circuncisão

O que era a circuncisão? A circuncisão era um corte realizado no prepúcio do orgão genital do homem. A prática era realizada com o esticar do prepúcio seguido por um corte no excesso realizado por uma faca com lamina de pedra (pederneira).

Mas a Abraão não tinha descendência ainda, pois sua esposa Sarai era estéril. Neste ponto o texto lança luz sobre o entendimento da circuncisão: ela era cruente, ou seja, havia o derramamento de sangue. A aliança seria selada com sangue. Esse tipo de acordo era bastante comum no mundo antigo, onde os pactos eram selados com o sangue dos contratantes. Podemos ver essa figura em muitos filmes de Hollywood.

Significado da circuncisão

Contudo, a aliança de Deus era um sinal de que a sua palavra com relação a conceder uma numerosa descendência a Abraão seria realizada;  era exatamente por isso que o corte no prepúcio era a “marca” ou “sinal” da aliança. Era no órgão genital masculino, no seu prepúcio, que era realizado o corte, e dali vinha o derramamento de sangue. A circuncisão era realizada, logicamente, apenas nos homens e nesse caso, só os homens tinham o sinal da aliança. Isso porque os homens eram os chefes dos clãs, das famílias. Uma família era representada pelo seu chefe, o patriarca da família.

Assim, a circuncisão, em outras palavras , era a o sinal da confirmação de Deus de que lhe daria uma geração de filhos larga, uma descendencia “tão numerosa como as estrelas do mar, e como a areia da praia”.

Em Josué 5, quando esse sinal foi novamente ordenado, Deus os estava lembrando de que a sua aliança continuava em vigor (embora o povo tivesse prevaricado contra ele muitas vezes no deserto, nos 40 anos de travessia no Siani). Em outras palavras, o povo que havia entrando na terra de Canaã era a descendência de Abraão! O Sinal foi apenas suspenso no deserto do Sinai por conta da desobediencia, mas a aliança jamais foi anulada ou quebrada por parte de Deus. Embora as maldições da aliança tivessem caído sobre a geração rebelde, contudo, seus filhos, a nova geração recebeu o cumprimento da promessa, o que mostra a continuidade da aliança.

Até hoje, embora o sinal da aliança na forma da circuncisão tenha sido uma marca para o antigo povo de Israel, e já tenha perdido seu sentido teológico e factual para o nosso tempo (ninguém precisa mais ser circuncidado hoje!), a verdade de que existe uma aliança entre Deus e o seu povo eleito continua. A fé que confessamos é o atual “sinal” da aliança, que aliás, mesmo nos tempos do AT tinha que ser primeiramente uma “circuncisão de coração”, ou seja, de fé e compromisso com Deus. A Circuncisão era uma sombra e foi abolida com a chegada do verdadeiro Cordeiro pascal, Jesus Cristo. Do mesmo modo, a fé tomou o lugar da circuncisão e é o sinal de que somos o povo de Deus, a descendência santa.

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A CFB 1644 e a Providência de Deus – Comentário

O Artigo III da Confissão de Fé Batista de 1644, que trata da Providência de Deus, afirma nas primeiras linhas que: “Deus decretou em si mesmo, antes que o mundo existisse, todas as coisas”. Cara leitor, acompanhe comigo as implicações desta poderosa afirmação (que é bíblica!!).

A discussão que se segue é complexa, pois o artigo III desta confissão envolve as doutrinas que realçam a soberania de Deus: Seu decreto e sua providência. A redação do texto, embora resumida, é clara quanto ao pensamento dos batistas neste ponto: “Deus decretou em si mesmo, antes que o mundo existisse, todas as coisas”. O texto afirma primeiramente três grandes verdades:

1. Existe um decreto e Deus é o seu autor Soberano: “Deus decretou em si mesmo”;

2. O tempo do decreto. Ele é eterno, ou “antes que o mundo existisse”;

3. A abrangência do decreto. Ele é absoluto: “Deus decretou… todas as coisas”.

Há ordem e propósito na criação. Todo o Cosmos segue ordeiramente seu curso conforme o Criador estabeleceu. Não devemos pensar em Deus como um mero relojoeiro, conforme os deístas acreditam. A criação não é semelhante a um relógio, cujo relojoeiro produziu e deu corda para que ele funcione. Ele, agora, trabalhar sozinho, sem a necessidade do relojoeiro. Isto implicaria em um Deus que criou o universo com todas as suas leis bem definidas, mas que logo em seguida o deixou à sua própria sorte, sem se envolver com mais nada. Muito pelo contrário. Toda a criação de Deus é teleológica, isto é, tudo foi criado sabiamente com um fim específico. A criação tem propósito. E se tem um propósito, ou seja, um alvo final, faz-se necessário um plano bem traçado que conduza cada átomo criado ao seu destino último, ou seja, ao propósito de Deus. A isto chamamos o decreto de Deus. A criação e tudo que vai acontecer no tempo foram decretadas eternamente por Deus.

Como apresenta o texto da confissão, Deus “decretou em si mesmo”, e isso sugere exatamente a liberdade e o soberano beneplácito de Deus em decretar tudo o que ele quis, da maneira como ele quis e no tempo em que ele quis. Não havia nada, se não unicamente a eterna existência do Deus trino, por isso a expressão “em si mesmo”. Ele não decretou a alguém, como se existisse alguma coisa, Ele decretou em si mesmo.

Por que Deus decretou criar? A resposta é: porque o Senhor, em sua soberania, assim desejou. Deus jamais foi ou poderia ser impelido a criar o universo; a criação não é uma obra necessária, como se Deus obrigatoriamente tivesse que decretá-la, mas uma obra que tem sua origem no beneplácito de Deus. Tudo que Deus decretou, ele decretou livremente. Cada mínimo acontecimento na história universal, bem como as mais importantes decisões que já foram tomadas na história humana, é parte do decreto eterno de Deus. Nada escapa, nada acontece por acaso, por sorte ou por coincidência. Antes, o Todo-Poderoso a todas as coisas decretou.

O tempo do decreto foi “antes que o mundo existisse”. Na verdade usamos a frase tempo do decreto apenas com uma finalidade didática. Deus ainda não havia criado o tempo, ou espaço, ou qualquer coisa. O decreto é atemporal. Aconteceu na eternidade de Deus, por isso não podemos literalmente falar em tempo do decreto, pois o tempo não existia. A sabedoria e a inteligência de Deus são manifestas nisso. Pois que grande mente pode, antes mesmo que algo exista, estabelecer perfeitamente toda a sua história? Pense na sua própria história e em cada acontecimento que já lhe envolveu. Nos emaranhados de outros acontecimentos que estão interligados em si. O salmo 139 é claro quanto a este ponto, pois Davi prontamente declarou: “e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda” (Sl 139.16). Se já é incrível imaginar que Deus decretou tudo que nos acontece e que vai acontecer, pensemos nas mais de 6 bilhões de pessoas que vivem hoje sob a face da terra, nos mais diferentes locais e contextos. Pense na multidão de almas que já veio ao mundo desde Adão até nossos dias, e ainda as que virão nos dias futuros. Antes que qualquer uma delas existisse Deus decretou todas as coisas que lhes aconteceria minuciosamente. Pense também na multidão de animais, de todas as espécies que povoa a terra; os bilhões de Galáxias que existem, com seus intrincados sistemas e orbitas. Tudo foi plenamente decretado por Deus antes que qualquer coisa fosse criada: “antes que o mundo existisse”.

Não confundamos aqui Decreto com Providência. O decreto é atemporal, na eternidade, enquanto que a providência se vê no curso da história, acontece no tempo. Quando falamos em decreto, com relação ao universo estelar, por exemplo, apontamos o decreto de Deus em criar as Galáxias, estabelecê-las em um determinado ponto do universo, com um número determinado de astros, com órbitas estabelecidas, com distâncias prontamente definidas, com os acontecimentos que lhes sobrevirão, etc. Já a providência trata do controle que Deus exerce hoje e sempre sobre elas, bem como da sustentação que o Senhor lhes assegura.

Como vimos, tudo que acontece é parte do decreto de Deus. Os batistas ingleses sustentavam que Deus decretou “todas as coisas”. As implicações dessa afirmação são muito profundas. As grandes perguntas são: Deus decretou o mal? Deus decretou o pecado? Ao tempo que a grande resposta é que Ele decretou “todas as coisas”, e isso envolve decretar a existência do mal e do pecado, bem como as próprias ações de suas criaturas morais: “Eu formo a luz e crio as trevas, faça a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” (Is 45.7). Deus é o fim último de tudo. Tudo converge Nele.

Pr. Marcus Paixão

Cristo: o ápice da graça de Deus

Observe o texto de Deuteronômio 9.5:

“Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela maldade destas nações o SENHOR, teu Deus, as lança de diante de ti; e para confirmar a palavra que o SENHOR, teu Deus, jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó.”

Quando estas palavras foram ditas a Israel, eles ainda não tinham entrado na terra de Canaã. Há uma mensagem de Deus muito clara aqui, e eles não podiam jamais esquecer: a terra era uma dádiva do Senhor, e até mesmo a conquista da terra seria realizada pela mão do Senhor em favor deles. Tudo isso enfatizava que a terra e sua posse eram dádivas do Senhor. Israel jamais poderia se gloriar disso. Deus estava fazendo tudo isso por Israel sem que eles merecessem. Israel não era um povo justo, nem forte. Israel também não tinha um coração reto para com Deus, mas, mesmo sem merecimento algum, Deus estava lhes dando uma terra preciosa. A fidelidade de Deus estava em jogo, pois ele diz que sua promessa estava se cumprindo com a dádiva da terra, a promessa feita a “Abraão, Isaque e Jacó”.

Hoje eu quero ser bem direto com você meu amado leitor: Todos nós somos como Israel e não merecemos coisa alguma de Deus. Mesmo sem merecermos, Deus nos deu aquilo que é mais precioso no universo, seu Filho Unigênito, Jesus. A mesma graça de Deus que foi despendida imerecidamente sobre uma nação que teimava em se desviar de Deus, foi derramada sobre nós sem medida. Aliás, a graça de Cristo é infinitamente superior à herança de uma terra, mesmo com todas as implicações teológicas ali contidas. Cristo é a grande dádiva de Deus! Jesus é o ápice da graça.

Jesus é o nosso tesouro. Vivemos por causa Dele. Nossa esperança se sustenta Nele. A vida eterna nos oferecida por Ele. Sem Ele não há esperança, não há vida e não há salvação. Temos muito mais motivo para nos alegrarmos do que Israel, ao entrar na terra prometida e receber sua herança tão aguardada.

Pr. Marcus Paixão

Que tipo de cristão eu sou?

Como tem sido exercitado o seu cristianismo? De todos os supostos modelos tão comumente observados nas mais variadas igrejas, nossos olhos devem sempre está voltados para o modelo que a Escritura sagrada nos apresenta. O modelo cristão é bem simples: «todo aquele que quiser ser meu discípulo, tome, pois, a sua cruz, e siga-me». Também diz o modelo bíblico: «Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo»; «ame a Deus acima de tudo e ame seu próximo como a si memso»

Porém o que tem prevalecido são modelos bem diferentes daquele estabelecido pela Palavra de Deus. Hoje nos deparamos com os chamados crentes «sociais», que vivem na igreja mas sem se divorciarem com as atividades mundanas e imorais promovidas pela sociedade. Há os crentes «nominais», que são aqueles que crêem só de boca, estando o coração bem longe do Senhor. Um outro tipo é o crente «inspirado», que nega algumas partes da Bíblia por julgá-las não inspiradas pelo Espírito Santo. Esse só acredita naquilo que quer acreditar. Há o crente «ecumênico» que está em todas as igrejas e concorda com a doutrina de todas as igrejas que freqüenta, mesmo as que são contrárias às doutrinas que ele diz que crer em sua própria igreja.

São muitos os modelos. Não devemos nos espelhar em igreja A ou B, ou entre o irmão A ou B. A igreja bíblica é aquela que segue o modelo bíblico. A única regra que Deus nos deu que apresenta o único modelo aceitável diante Dele é a sagrada Escritura, a Bíblia. Portanto, se você almeja ser um crente fiel e viver segundo a vontade de Deus, esqueça todos os modelos populares ou da moda, e volte-se para a Palavra de Deus e viva como a Palavra de Deus orienta.

O velho jargão, que eu li no passado muitas e muitas vezes estampado nos muros de minha cidade nunca foi defasado, sendo mais do que nunca a única forma de nos tornarmos crentes bíblicos: «LEIA A BÍBLIA»!

Pr. Marcus Paixão

A Bíblia e os mitos… quem copiou de quem?

Esse artigo foi apresentado por mim no curso de história, na disciplina História Antiga, na Universidade Estadual do Piauí – UESPI, quando o relato da criação em Gênesis foi visto como sendo um mito copiado. Disponibilizo o material agora aos meus leitores (a referencia bibliográfica foram extraídas propositadamente. O título original foi mudado por esse, para se acomodar melhor ao blog).

As várias ciências humanas tem demonstrado que o homem, desde de seus primórdios, tem produzido e preservado idéias cosmogônicas. Os hebreus tem a sua cosmogonia apresentada nos capítulos iniciais do texto de Gênesis, do Velho Testamento. Tais concepções existentes em várias partes do planeta, apresentam muita similaridade, o que parece indicar uma fonte comum para todas elas. Qual seria a fonte que originou tantas similaridades?

Neste artigo pretendemos apresentar ao leitor a hipótese de que o Relato da Criação, contido no texto dos hebreus, pode ser a base de toda a cosmogonia mitológica do Antigo Oriente, ao tempo em que negamos a idéia de que o relato bíblico seja um plágio de tais mitos, com adaptação dos hebreus.

  1. 1.    A Cosmogonia bíblica: mito ou relato histórico

No século XVIII a concepção de que a Bíblia apresentava um relato histórico e confiável da origem do universo e da vida passou a ser questionada. O relato da criação passou a ser comparado aos mitos do Antigo Oriente (Egito, Mesopotâmia e Ugarith), sendo, inclusive, desqualificado e rebaixado como plágio, uma simples cópia adaptada às crenças dos hebreus.

O texto bíblico, porém, difere das mitologias do Antigo Oriente, que foram, na realidade, rejeitadas pelos israelitas. Aliás, o texto hebreu não tem as características que definem um mito:

            No Antigo Testamento não se encontram termos parecidos que definam o que era mito. Todavia, parece haver um consenso entre os estudiosos de que os textos do antigo Oriente Próximo que tratavam dos feitos miraculosos dos deuses foram rejeitados por Israel devido ao caráter politeísta e não-histórico dos seus relatos (BARBOSA, Aírton. FIDES REFORMATA, in GÊNESIS 1.1-2.3: UM TEXTO MÍTICO?, Instituto Presbiteriano Mackenzie, 2004, p. 16).

Subentende-se que um mito é caracterizado pela presença de histórias não reais, com a presença de seres divinos (deuses) ou homens e outros seres sobrenaturais. Embora fossem conhecidos dos hebreus, estes mitos foram rejeitados por eles por causa da presença de um forte politeísmo, e por não se tratarem de ‘história real’. Kaufmann descreve algumas características dos mitos cosmogônicos pagãos, tais como os do antigo Oriente Próximo:

… um reino primordial que abriga as sementes de todo ser; uma teogonia que narra o nascimento dos deuses que são sexualmente diferenciados e procriam; a criação do cosmos a partir de matéria primordial – a mesma da qual emergiram os deuses, ou de alguma substancia “divina”. (BARBOSA apud Kaufmann, A RELIGIÃO DE ISRAEL, p. 28).

Mas a idéia do que seja um mito vem ganhando novas perspectivas. Para Mircea Eliade, embora seja extremamente difícil dar uma definição que fosse aceita por todos, o mito pode ser visto como uma realidade primordial e que atesta o verdadeiro:

O mito é considerado uma história sagrada e, portanto, uma “história verdadeira”, porque sempre se refere a realidades. O mito cosmogônico é “verdadeiro” porque a existência do mundo aí está para prová-lo; o mito da origem da morte é igualmente “verdadeiro” porque é provado pela mortalidade do homem (ELIADE, Mircea. MITO E REALIDADE, São Paulo, Perspectiva, 2004, p. 12).

Esse novo significado para mito carece de mais reflexão. Como se pode considerar uma história cheia de uma grotesca mitologia, verdadeira? Ela pode sim, tocar em algo verdadeiro, retratar realidades, como a existência de um cosmos, da morte, etc, mas considerá-la uma “história verdadeira”, como pensa Eliade, nos parece um erro, pois o mito é uma história que não é verdadeira, a falsa descrição de um acontecimento. Os mitos, em particular os cosmogônicos, são apresentações falsas ornamentados com algum aspecto de verdade.

1.1.         Gênero Literário

Outra característica do mito é a forma poética como ele se apresenta. A mitologia do antigo Oriente Próximo era construída em forma de poesia, sendo esta uma característica definida do mito. Frederico Mélia, reportando-se, por exemplo, ao Épico de Gilgamesh, admite ser ele um poema composto em forma de canto[1], o que caracteriza a sua natureza poética.

O relato bíblico da criação contrasta com todas estas características mitológicas. Ela apresenta nos dois primeiros capítulos de Gênesis a sua cosmogonia. Difere da mitologia por apresentar um monoteísmo bem definido, exclusivo[2], onde o SENHOR é Soberano sobre toda a sua criação, que veio a existência a partir de sua ordem/palavra, do nada, “ex nihilo”.  No aspecto textual, ela também difere da mitologia à sua volta, pois apresenta a narrativa histórica como seu gênero literário, embora livros inteiros na Bíblia tenham sido escritos em forma poética, como Salmos, Jó, Eclesiastes, Provérbios e Cantares. Todas estas características acima mencionadas confirmam que o relato da criação em Gênesis diferencia-se da mitologia em aspectos centrais. O escritor hebreu, Moisés, escreveu história. Seu texto é um relato histórico da origem do cosmos, não um poema hebreu.

1.2.         A cosmogonia bíblica

Genesis 1:1 – 2:1  No princípio, criou Deus os céus e a terra.  2 A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.  3 Disse Deus: Haja luz; e houve luz.  4 E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas.  5 Chamou Deus à luz Dia e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia.  6 E disse Deus: Haja firmamento no meio das águas e separação entre águas e águas.  7 Fez, pois, Deus o firmamento e separação entre as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento. E assim se fez.  8 E chamou Deus ao firmamento Céus. Houve tarde e manhã, o segundo dia.  9 Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a porção seca. E assim se fez.  10 À porção seca chamou Deus Terra e ao ajuntamento das águas, Mares. E viu Deus que isso era bom.  11 E disse: Produza a terra relva, ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele, sobre a terra. E assim se fez.  12 A terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie e árvores que davam fruto, cuja semente estava nele, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom.  13 Houve tarde e manhã, o terceiro dia.  14 Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos.  15 E sejam para luzeiros no firmamento dos céus, para alumiar a terra. E assim se fez.  16 Fez Deus os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia, e o menor para governar a noite; e fez também as estrelas.  17 E os colocou no firmamento dos céus para alumiarem a terra,  18 para governarem o dia e a noite e fazerem separação entre a luz e as trevas. E viu Deus que isso era bom.  19 Houve tarde e manhã, o quarto dia.  20 Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento dos céus.  21 Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom.  22 E Deus os abençoou, dizendo: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei as águas dos mares; e, na terra, se multipliquem as aves.  23 Houve tarde e manhã, o quinto dia.  24 Disse também Deus: Produza a terra seres viventes, conforme a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua espécie. E assim se fez.  25 E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom.  26 Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.  27 Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.  28 E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.  29 E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento.  30 E a todos os animais da terra, e a todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez.  31 Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia. 

1.3.         Gramática: o verbo hebraico

Observando o gênero literário da relato da criação no texto bíblico, constata-se uma escrita na forma de narrativa. Além da questão do gênero literário, a gramática em si, o uso de determinadas expressões e verbos, separa o texto dos hebreus dos mitos. O escritor sagrado faz uso do verbo ar’B’ (b¹r¹°) para expressar a maneira como o Cosmos veio à existir e para revelar a identidade do seu autor, visto que o sujeito deste verbo sempre é Deus. Ele é acertadamente traduzido por “criar”, e quando ele se encontra no grau Qal, sempre está associado a algum tipo de atividade divina. Van Gronigen sugere que este verbo indica uma nova criação, ou o início absoluto de algo, como a criação do Cosmos. Significa criação divina, um ato de Deus em criar alguma coisa, não necessariamente, e nem exclusivamente, criar “do nada”,[3] mas o ato de Deus criar, seja do nada, seja utilizando-se de algo já existente. Por ser um verbo télico, refere-se a um ato concluído, indicando assim, que Gn 1.1 não apresenta Deus criando, mas apresenta-o como tendo criado, um processo acabado. Strong, embora admita que a criação como descrita em Gn 1 foi sem o uso de matéria preexistente, conclui que o uso desta palavra não denota especificamente criação sem o uso de matéria preexistente. Algumas passagens, como a criação do homem onde o mesmo verbo é utilizado descreve a criação à partir de matéria que já existia. O homem foi criado do “pó da terra.” Segundo ele, o contexto de Gn 1 indica o início absoluto, o chamado à existência, e acrescenta: “se ar’B’ (b¹r¹°) não significa criação absoluta, não há na língua hebraica nenhuma palavra que expresse essa idéia” (STRONG, 2003, p. 554).

Quanto à criação inicial em Gn 1.1, o verbo refere-se a um começo absoluto, o que significa que a criação foi chamada a existir “do nada.” Não houve material eterno ou pré-existente de que Deus se utilizou. A expressão “do nada”, comumente utilizada para descrever a criação, não deve levar o leitor a achar que o nada é algum tipo de substância eterna; o termo é empregado simplesmente para descrever criação sem a utilização de nenhum tipo de material.

Agora somos levados a conhecer a cosmogonia divina. Aquilo que nenhum olho humano pôde contemplar em seu início absoluto, foi revelado graciosamente por Deus à humanidade. O homem passa a conhecer a criação e a entender o “que”, o “porquê” e o “como” as coisas surgiram, e “quem” as fez. Nas próximas páginas, nosso foco se dará em analisar a origem do Cosmos, seguindo bem de perto alguns aspectos do relato da criação, como está em Gênesis. Estes serão contrastados com alguns mitos do antigo Oriente Próximo.

  1. 2.    As Cosmogonias do Antigo Oriente

Cosmogonia é o termo empregado para estudar as várias teorias que procuram explicar a origem do universo. O termo grego deriva de duas palavras: kosmos “mundo, universo” e gignesthai, “nascer”, significando “origem do universo.” Analisar o ponto de vista pagão através dos seus muitos relatos da origem do universo é algo de valor, pois nos levará a entender a mente pagã e seus princípios religiosos, como divindade e culto.

2.1.         Cosmogonia Suméria

O texto mais antigo a retratar uma cosmogonia é dos povos orientais chamados de Sumérios. Para os sumérios O mito do paraíso de Enki e Ninhursag apresenta uma série de deusas procriando à semelhança humana; utilizando-se do sêmen do deus Enki a vida vegetal é gerada em variadas formas.

 

2.2.         Cosmogonia Egípcia

Os antigos egípcios acreditavam que um ser divino, a partir de matéria já existente, ambos eternos, trouxe à existência o mundo. O deus Atum-Khuprer, junto com o deus Rá, era a principal divindade adorada na cidade de Heliópolis; ele surge das águas, em pé sobre uma montanha que emerge das profundezas do Caos.[4] Ele é visto como o deus dos deuses, sendo ele o criador dos demais deuses. No período neolítico parece ter havido uma fusão das duas divindades egípcias, dando origem ao deus Atum-Rá.

No pensamento egípcio são eternos, tanto Atum-Khuprer quanto as águas do Caos, e a grande montanha em que ele se encontra de pé. Portanto, água e terra (matéria) são eternos.

2.3.         Cosmogonias da Síria e da fenícia

Os mais antigos registros sírios descrevem o confronto entre os mais poderosos deuses para adquirirem o controle sobre as divindades mais baixas, os homens e a terra. Os fenícios consideravam inicialmente a existência do Caos, uma força primitiva ou espírito primitivo que emana do caos. A criação fenícia apresenta a união do espírito do caos com a lama (mot). Essa união deu origem a um grande ovo, do qual a vida veio a existir posteriormente.

2.4.         Cosmogonia Babilônica

A mais conhecida cosmogonia antiga chama-se Enuma Elish ou “quando no alto.” Escrito em acadiano, trata do relato das origens mais importante da mesopotâmia. Em sete tábuas de argila, numa linguagem literária muito baixa, a cosmogonia da Babilônia é apresentada. A figura do Caos novamente é vista em oposição aos deuses. Uma grande batalha entre essas duas forças teria dado origem ao universo, em um conflito cósmico entre a Ordem e o Caos. A deusa Tiamate, que representava o oceano primitivo, batalha contra Marduque e é derrotada. Os céus e a terra são criados a partir da carcaça dividida de Tiamate. Com o sangue daqueles que conspiravam com ela, a humanidade é criada. A cidade da Babilônia é construída como um presente dos deuses a Marduque, por ter ele livrado-os de Tiamate.[5]

  1. 3.    A Cosmogonia pagã em relação à cosmogonia bíblica

Muitos têm atacado a autoridade da Bíblia, procurando desacreditar sua narrativa da criação. O liberalismo chama-a de “mais um mito antigo”. Alguns sugerem que o escritor bíblico copiou e adaptou à sua própria narrativa, às variadas formas míticas encontrada nas cosmogonias pagãs. Assim, os hebreus teriam criado seu próprio relato da criação baseado em relatos já existentes em sua volta. Detalhes que identificam e tornam a narrativa bíblica dependente de outros relatos são mencionados como “prova incontestável” de cópia. Contudo, embora haja semelhanças em ambos os relatos, as diferenças são pujantes. No entanto, as semelhanças também podem indicar conhecimento dos relatos pagãos, como sugere Watke:

Tendo sido altamente educado na corte de Faraó como o filho da filha de Faraó… Moisés teve singular acesso aos mitos do antigo Oriente Próximo que revelam estreitas relações com Gênesis 1-11. Por exemplo, o Épico de Atrahasis e a história sumeriana do dilúvio, ambas datadas antes de 1600 a.C., fazem paralelo bem estreito com o conteúdo temático de Gênesis 1-11… O relato da criação em Gênesis 1 tem paralelo com o relato babilônio da criação do início do segundo milênio a.C., o Enuma Elish. (WALTKE, Bruce. 2010, p. 22).

3.1.         Estilo do autor

O estilo mosaico pode ter sido proposital no relato da criação para contrastar a criação divina original com os variados relatos que predominavam no antigo Oriente Próximo. Uma semelhança ainda maior pode ser percebida quando avaliamos os relatos pagãos uns com os outros. Em todos eles existe a presença de um deus ou deuses existindo eternamente e conjuntamente com um tipo de Caos, que às vezes é claramente personificado. Diferenças marcantes com o texto bíblico: Um politeísmo gritante é apresentado; existe a presença de matéria preexistente: água, lama, montanhas; a presença de uma grosseira mitologia: deuses que sangram, relacionamento sexual entre divindades, sêmen “divino” dando origem a vida vegetal, um panteão com poderes exclusivos e limitados, deuses sendo possuídos por sentimentos desprezíveis e que morrem, gigantes, ciclopes, heróis (semi deuses). Uma aparente familiaridade nos aspectos das narrativas pagãs revelam que elas se assemelha muito mais entre si, quando comparados com a narrativa bíblica. Por outro lado, o relato mosaico apresenta uma seqüência ordenada, simétrica, escritas nas formas da narrativa hebraica; apresenta um único criador, que existe sozinho e age soberanamente, sem nenhum tipo de empecilho; apresenta uma idéia original de criação sem a utilização de matéria preexistente, uma idéia tipicamente hebraica e singular entre todos os povos daquele período; apresenta um relato onde a criação segue passos perfeitamente lógicos; apresenta um propósito para tudo que existe, dando um sentido teleológico ao Cosmos, bem como a excelência de toda a criação. Nenhum destes aspectos pode ser visto na literatura pagã do modo como são apresentados pela Escritura Hebraica.

3.2.         Semelhanças e diferenças nos relatos

Existem similaridades entre os relatos, especialmente no relato babilônico Enuma Elish. Os críticos da Bíblia sugerem que: (1) Os relatos pagãos sugerem a existência de um mar primevo, um Caos. O relato de Gênesis também apresenta um mar e um estado caótico; (2) Existe nesse relato o conflito entre o deus das tempestades e o dragão Illuhankas. Essa história é apresentada como sendo a fonte da idéia hebraica de Satanás, o grande inimigo de Deus, e da serpente que enganou Adão e Eva no paraíso. (3) Quanto ao ser humano, no relato babilônico, o homem foi feito da argila; o relato bíblico plagiou o mesopotâmico, quando apresenta o homem sendo criado do pó da terra; (4) as idéias de um paraíso que foi amaldiçoado e posteriormente restaurado. O relato da queda do homem, bem como a maldição lançada sobre a terra, e sua posterior restauração foram, portanto, copiados do Épico da Criação dos babilônicos. (5) Uma similaridade extraordinária é o relato pagão da criação da deusa Nin-ti, cujo nome é traduzido por “senhora da costela” ou “senhora que vivifica.” Os críticos apontam a Eva bíblica como uma imitação da Senhora da Costela do Enuma Elish. Eva foi criada de uma costela de Adão. Além disso, seu nome, Eva, significa “vida” na língua hebraica, o que seria um paralelo para “Senhora que Vivifica.”

Listamos, de forma geral, as similaridades entre os dois relatos, embora, seja verdade que nos mesmos relatos que apresentam tais similaridades, existam muitas diferenças marcantes. Notemos que os críticos sempre olham para o relato bíblico da criação como sendo uma cópia. Mas, não poderia a Bíblia ser o relato original, estando, portanto, todos os demais relatos corrompidos?

  1. 4.    Corrupção do relato original

Não apenas o relato bíblico da criação tem a sua versão paganizada, mas a história do dilúvio bíblico também concorre com uma outra versão, o Épico de Gilgamesh. E não apenas esse, mas em todos os continentes do globo terrestre, nas tribos e povos mais antigos, registra-se a inundação da terra por meio de uma enchente avassaladora, onde, na maioria das vezes, apenas um homem e sua família sobreviveram. Tantas similaridades com as histórias bíblicas, a meu ver, não apontam uma simples dependência dos textos bíblicos de fontes pagãs, pelo contrário, parecem indicar a crença universal de que tais mitos procuram olhar para um evento (ou vários eventos) que realmente aconteceu. Houve uma criação, com um período inicialmente caótico. Um relato é verdadeiro, os demais foram corrompidos com o passar dos séculos. Assim, os mitos mesopotâmicos, do Antigo Oriente, Mediterrâneos (e de outras partes) são corrupções do relato original (oral), que séculos mais tarde foi escrito por Moisés (o texto hebraico, ou o livro de Gênesis do VT, que conhecemos).

4.1.         Fontes antigas

A transmissão de tais relatos remonta um período de tempo bem anterior à escrita. Não seria correto julgar o relato bíblico como sendo uma cópia mítica adaptada, apenas baseado no fato de que seu texto é mais recente do que muitos textos da mesopotâmia e, sendo assim, obviamente o texto de Moisés seria um relato que foi adaptado à crença hebraica. Na verdade, dois aspectos devem ser observados aqui. Primeiro: Quanto ao texto hebraico, não sabemos se tudo foi miraculosamente revelado por Deus a Moisés, ou se parte do relato já existia em forma escrita, datando de um tempo bem anterior ao de Moisés. Em Gênesis 5.1, Moisés escreveu: “este é o livro da genealogia de Adão”. O texto indica que uma fonte, um livro ou documento contendo toda a genealogia de Adão já existia na forma escrita, preservada pelos hebreus.

4.2.         O parentesco lingüístico

O outro aspecto é a língua. O idioma hebraico faz parte do ramo de idiomas semíticos que tiveram sua origem no Crescente Fértil. O hebraico é do ramo ‘Semítico do Noroeste’. Outros dois ramos lingüísticos com parentesco são o Semítico Oriental e o Semítico do Sul. Esta raiz lingüística envolve praticamente todas as nações daquela região: Assíria, Acade e Babilônia com o idioma chamado acadiano; O alfabeto ugarítico na região sírio-fenícia, daí vem o aramaico o cananeu e posteriormente o hebraico; do ramo Semítico do Sul vem todo o leque de idiomas e dialetos do mundo árabe. Todas estas línguas tiveram uma raiz comum, derivando de um mesmo idioma primitivo que se desenvolveu posteriormente nas várias línguas da região. Hoje, uma das teorias mais defendidas na filologia, é a de que todos os idiomas do planeta derivam de uma língua comum, de um idioma primitivo. Daí, obviamente que a semelhança lingüística entre o hebraico e o acadiano, por exemplo, são sinais de que elas são derivadas da mesma fonte lingüística. Não é estranho que a genealogia de Adão, por exemplo, pudesse ter sido preservada em um hebraico primitivo, ou em um outro idioma mais antigo.

4.3.         A tradição oral

Os próprios mitos remontam o período anterior à escrita, seguindo a datação tradicional do aparecimento da escrita. Os textos cosmogonicos mais antigos são os sumérios, e como bem frisou Mircea Eliade, “esse documentos [escritos] refletem, certamente crenças religiosas mais arcaicas”. Tais crenças “mais arcaicas” que deram forma aos mitos escritos, estavam vivas e eram transmitidas oralmente à geração seguinte. O universo das transmissões orais, a história oral, seria o berço de todos os relatos antigos: os mitológicos, e o relato bíblico (não mitológico). Daí, não se pode afirmar, por exemplo, que o mito sumério, ou o Enuma Elish sejam uma história mais antiga do que o relato da criação em Gênesis, o que se pode afirmar é que tanto o mito sumério, como o Enuma Elish foram primeiramente escritos, colocado em tabletes de argila. Moisés escreveu posteriormente o relato bíblico da criação. Mais a antiguidade de um relato não deve ser medida a partir de sua fonte material, pois a oralidade do relato supera o tempo da sua escrita. Assim sendo, tanto o relato de Gênesis, como o Enuma Elishh, por exemplo, já existiam antes mesmo de serem colocados em forma escrita. Isso sugere que a narrativa da criação que Moisés escreveu pode perfeitamente ser mais antiga do que as variadas mitologias cosmogônicas; pode ser a base, inclusive, das mitologias, sendo nesse caso, o inverso do que a crítica bíblica sugere.

4.4.          Comparação equivocada

Na narrativa dos hebreus, o primeiro ato criativo de Deus foi trazer à existência o espaço e a matéria. Espaço como o lugar que seria preenchido por uma infinidade de estrelas e galáxias, e a matéria com a qual o nosso planeta foi organizado. Isso indica que havia um estado de desorganização inicial. Um estado bruto, uma matéria não lapidada: “A terra, porém, estava sem forma e vazia. havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.” (Gn 1.2). Uma similaridade com os mitos pagãos pode ser observada no uso de palavras e expressões do tipo: sem forma e vazia; trevas; abismo; águas. Os mitos, como vimos antes, introduzem suas cosmogonias com a existência de uma grande mar, denominado Caos. Um grande oceano está presente e existe um certo sinal de desorganização, marcado pela guerra entre os deuses e monstros. Portanto, o verso dois de Gênesis é o que apresenta mais similaridades com os mitos pagãos em todo o relato criativo dos hebreus.

Alguns termos são importantes: o hebraico Whboêw” ‘Whto’ (töºhû wäböºhû)sem forma e vazia” parece uma forma poética, composta com a finalidade de rimar aos ouvidos do povo hebreu. Caos é o significado aqui, mas não um Caos personificado, representativo, como nos mitos pagãos. O termo Wht (töºhû) é traduzido por caos. A idéia bíblica é de desordem da matéria, confusão, alguma coisa informe e sem simetria. O termo seguinte, que classifica a terra como estando Whb (böºhû) “vazia” expressa a mesma idéia de caos. Seu sentido é de algo vazio e desolado. A construção gramatical, como aparece em Gênesis 1.2, está presente em mais dois livros do Antigo Testamento; primeiro em Jeremias 4.23; e no profeta Isaías 34.11, com uma construção gramatical levemente alterada. Todas as passagens transmitem a idéia de estado caótico e de extrema desolação. Parece que a rima das duas palavras hebraicas é usada para enfatizar o estado de caos.

Outro termo que lembra a mitologia, é a palavra ~AhT. (Tühôm) “oceano, águas profundas, abismo”. Na literatura pagã a deusa Tiamat equivale às águas do caos personificada. A discussão se dá pela semelhança etimológica da palavra no acadiano (escrita da literatura pagã) com o hebraico. O termo hebraico não é derivado diretamente do acadiano, mas é similar, e parece ser a palavra que representa o mesmo sentido do termo acadiano: oceano, mar, águas. A grande diferença é que no relato bíblico o grande oceano é exatamente e literalmente um grande oceano, e nada além disso. No relato pagão, o oceano é divinizado em Tiamat, uma deusa maligna.

A matéria criada para a formação da terra, até então, encontrava-se coberta pelas águas. O relato bíblico diz que o Espírito de Deus pairava por sobre a face das águas.” Aqui, relaciona-se o Espírito de Deus e as águas. Para encerrarmos a discussão das similaridades entre os mitos pagãos da criação e o relato bíblico, tecerei mais um comentário a esse respeito, pois alguns vêem aqui, novamente, a sombra da história de Tiamat. Na mitologia, ela, personificada pelas águas do caos, luta contra os deuses e é derrotada por eles. Sendo assim, alguns estudiosos procuram equiparar o Espírito Santo pairando sobre as águas como uma espécie de luta entre o Espírito e as águas caóticas da criação de Deus. Não existe a menor indicação de luta do Espírito com as águas, portanto, não existe similaridade aqui. Nenhuma idéia do texto bíblico, com exceção da presença da água do oceano e do Espírito Santo, que podem ser relacionados com o Caos e Tiamat, segue o texto pagão. Não houve guerra e nem esforço de Deus na criação. Apenas o progresso da criação em seus estágios, conforme acompanhamos em cada ato criativo e organizador em cada dia, e no avanço do estabelecimento do perfeito cosmos de Deus dia após dia.

A associação e o uso de termos que representam eventos ou criaturas das mitologias do antigo Oriente Próximo (se esse for o caso em Gênesis 1) não pode ser interpretado como prova de crença nos relatos pagãos ou cópia destes mesmos relatos por parte do escritor bíblico. Crenças tão comuns no Antigo Oriente e na Mesopotâmia, evidentemente poderiam ser mencionadas de acordo com os objetivos estilísticos e didáticos do autor. Muito mais importante é a hipótese que já foi mencionada anteriormente, que os relatos mitológicos são deturpações do relato original de Gênesis. Os mitos olharam para a Palavra de Deus e não o contrário. Gênesis é a fonte e não a cópia! Quando nos referimos em Gênesis como sendo a fonte dos mitos, não pensamos no texto mosaico como base para os mitos, pois as mitologias são mais antigas do que o texto de Gênesis que Moisés escreveu. Referimos-nos à tradição oral do relato da criação, desde Adão, passando pelos primeiros patriarcas ante-diluvianos, até Noé e sua família, e o mundo depois dele.[6] Se o relato foi preservado oralmente por meio de uma linhagem fiel mantida por Deus na terra, esse relato pode ter sofrido as mais variadas corrupções e adaptações por meio daqueles que, estando fora da comunidade fiel, ouviram tais relatos e os passaram adiante. Com o passar dos anos o relato foi deturpado e essa corrupção teria dado origem às várias cosmogonias do antigo Oriente Próximo, da Mesopotâmia e de muitas outras regiões.

 

  1. 5.    Conclusão       

A hipótese da originalidade do texto bíblico e da corrupção da tradição oral que carregava o relato cosmogônico original, que foi deturpado e originou as mitologias do Antigo Oriente Próximo, é perfeitamente possível, portanto, válida, não podendo ser meramente descartada por conta de pressupostos ou de convenções sem comprovação científica. Ela deve ser verificada e os estudos quanto a essa questão devem ser aprofundados. A filologia, a arqueologia, a antropologia, a teologia na esfera da bibliologia e outras ciências devem intensificar essa questão nos próximos anos.


 

A rejeição à sã doutrina

Inegavelmente observamos estarrecidos o nascer de uma época de terrível incredulidade e devassidão. Vivemos dias onde o evangelho é motivo de gargalhadas. Estamos vivendo o tempo da blasfêmia e do combate ao cristianismo autêntico.

A corrupção humana sempre teve início com a negação da palavra de Deus. Quando o mundo levanta-se impetuosamente contra a verdade revelada, na tentativa de silenciá-la, ou de detê-la, este é o prenuncio de tempos difíceis.
O apóstolo Paulo já advertia ao jovem Timóteo sobre a chegada desse tempo blasfemo:

«Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis… estes [homens] resistiram à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé [doutrina]» (1 Tm 3.1;8).

Mais uma vez vivemos tempos dificílimos. A fé bíblica (a sã doutrina) é atacada, desacreditada e tida como coisa banal. Nossos irmãos estão sendo levados por «ventos» de doutrina e são levados facilmente como se fossem palha seca. Os televangelistas, as mega igrejas da prosperidade, a busca por sinais mirabolantes, e as promessas de solução de problemas físicos e financeiros, tudo isso apresentado como se fosse bíblico, nada mais é do que a negação da Bíblia. A mensagem da cruz perdeu a centralidade, aliás, ela foi completamente excluída. O evangelho de hoje é a proposta de riquezas e saúde. Esta foi exatamente a proposta de Satanás ao Senhor Jesus:

«Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, MOSTROU-LHE TODOS OS REINOS DO MUNDO E A GLÓRIA DELES, e lhe disse: TUDO ISSO TE DAREI se, prostrado, me adorares.» (Mt 4.8).

A única forma de lutarmos contra esses «tempos difíceis» é anunciando a falsidade de suas propostas através do autentico evangelho de Cristo. Cabe à igreja ser a voz de Cristo para iluminar as trevas que recobrem nossa época.

Pr. Marcus Paixão

Confessando

Aprendemos muito com Tiago, o irmão do Senhor. Em sua carta destinada às doze tribos (aos cristãos judeus) ele aborda temas centrais e vitais à vida cristã. Mas em especial, no capítulo 5, o último de sua epístola, ele fala sobre a união íntima, a grande solidariedade cristã, que deve ser parte integrante da vida do povo de Deus: a irmandade fraterna e cheia de amor. Observe o que ele diz em 5.16:

«Confessai as vossas culpas uns aos outros e orai uns pelos outros, para que sareis»

A confissão de pecados e a oração conjunta, acompanhados de toda uma íntima confiança uns nos outros são marcas dos cristãos e devem permear nossas vidas em nosso tempo, na prática, e não simplesmente em palavras. Nesse texto Tiago orienta duas coisas para que se chegue a um determinado fim. Ele orienta que os irmãos, de modo mútuo, com inteira confiança, confessem seus pecados uns aos outros. Em seguida ele orienta os mesmos irmãos a buscarem o perdão e a fortaleza divina através da oração. Tiago mesmo acrescenta o motivo de tudo isso: «para que sareis», ou seja, para que haja o perdão e a restauração de cada irmão em falta.

A igreja hoje pouco se utiliza dessa prática bíblica. Os irmãos hoje oram e confessam seus pecados a Deus, o que é bom e correto, mas quase nunca encontramos alguém que esteja dispostos a confiar no seu irmão, confessando-lhe seus pecados ou suas lutas para se livrar de algum pecado específico, que esteja atrapalhando o seu crescimento na graça. Deus nos deu meios para crescermos na sua graça e um deles, é a igreja. É preciso que haja confiança e empenho por parte de cada um de nós para estarmos dispostos não apenas a ouvir a confissão de nosso irmão, como também para confessarmos nossas faltas, e mutuamente orarmos ao Deus dos céus pelo seu perdão.

Observe que o fim disso é a completa restauração: «para que sareis!». É exatamente esse o ponto, a cura de nossos pecados e a retomada do nosso crescimento espiritual. A igreja é um corpo e deve viver como tal. Não somos membros isolados, somos membros unidos à mesma e única cabeça, Cristo.

Pr. Marcus Paixão